
O
Depoimento abaixo é parte de um capítulo do
livro Saindo do Escuro de
Maria Adelaide C. Daudt D’Oliveira e Tereza Aquino,
Editora Gryphus.
Experimentando,
Entendendo e Deletando a Síndrome do Pânico
Tudo começou na década de 70. Nessa época,
o que hoje chamamos de Síndrome do Pânico era
diagnosticado pelos médicos como crise de “piti”,
frescura, psicossomático ou histeria. Depois de alguns
dias dessa primeira crise comecei a minha peregrinação
pelos consultórios médicos, a fim de obter uma
explicação para todas aquelas coisas estranhas
que estavam acontecendo comigo. Fui examinada por cardiologistas,
neurologistas, clínicos gerais e ginecologista. Todos
unanimemente me diziam que eu não tinha nada. Apenas
o neurologista que após um exame minucioso e o mesmo
diagnóstico de que não era nada clínico,
sugeriu-me procurar um psicanalista para conversar. Achava
que eu deveria estar estressada ou com algum problema psicossomático.
Uma
semana depois já estava fazendo análise o que
durou seis anos. Nesse período, apesar de frequentar
três vezes por semana o consultório da psicanalista,
não sentia melhora nenhuma em minhas crises. Continuava
a ter todos os sintomas como antes, só que como havia
sido medicada eles eram menos intensos. Taquicardia, suores,
aperto na garganta, falta de ar, tremedeiras fortíssimas,
dor no peito, eram as minhas reações corporais.
Sentia-me apavorada em cada crise, tinha medo de morrer.
Estressada,
fresca, histérica, propensa a “pitis”...
eu tinha certeza que eu não era. A única coisa
que começava a fazer sentido para mim é que
eu devia estar com “algo” raro ou ficando literalmente
louca. Vivi acorrentada por mais de dez anos a essas crises
e desenvolvendo a cada dia um novo tipo de fobia. O meu normal
era dormir até tarde para diminuir o máximo
possível as horas dos dias. O tempo não era
meu amigo, pelo contrário, era meu algoz. Ficar acordada
o menor tempo possível, era uma maneira de fugir dos
meus próprios pensamentos. Sentia verdadeiro pavor
das coisas mais banais, como, por exemplo, sair de casa.
O
medo, o desespero, a angústia, a certeza de que estava
à beira da morte, eram meus companheiros constantes.
Aos poucos fui me desligando do mundo exterior e precisando
estar sempre acompanhada mesmo dentro de casa, pois assim
me sentia um pouco mais protegida, caso a “loucura”
chegasse. Achava que se eu enlouquecesse de vez poderia querer
fazer algo de definitivo para parar com esse sofrimento e
tinha muito medo de me matar.
Durante todos esse anos vivi com medo de ter medo. Quando
estava sem crises minha ansiedade era enorme, pensava quando
e como meu inimigo me atacaria outra vez. Medo de elevador,
de túnel, de andar de carro, de viajar, de multidão,
de lugares fechados, de lugares abertos, de comer algo estragado,
de remédio e muitos outros que graças a Deus
agora nem me lembro mais, incapacitaram-me de ser uma pessoa
normal. Deixei o emprego, tranquei-me em casa para só
sair acompanhada e para lugares de fácil acesso. Tornei-me
uma pessoa estranha aos olhos dos outros e principalmente
da minha família e de meus amigos mais próximos
que não entendiam o porquê daquela mudança
radical.
Como
eu também não compreendia o que sentia, tinha
vergonha de contar a quem quer que seja, pois achava que iriam
me considerar louca. Fechei-me em mim mesma e passei a viver
uma personagem.
*
No início dos anos 90, vi um programa de televisão
sobre uma doença chamada Síndrome do Pânico.
O psiquiatra que estava sendo entrevistado descrevia com detalhes
tudo aquilo que eu conhecia tão bem e que era parte
integrante de minha vida. O que pude entender naquele primeiro
instante é que se tratava de algo relacionado a um
defeito de neurotransmissores cerebrais, talvez genético,
ou hereditário, ou pós-traumático, etc.
Bingo!!! Para mim pouco importava o que era, só interessava
que estava ali a luz no final do túnel.
Consegui
depois de muita luta comunicar-me com o tal médico,
mas infelizmente ele só atendia em São Paulo.
Perguntei insistentemente se ele me indicaria um outro psiquiatra
aqui no Rio, mas para minha surpresa ele disse que não
conhecia ninguém.
Desse
dia em diante comecei a ler ali, buscar acolá, tudo
que se referia a tal Síndrome do Pânico. A cada
dia tinha mais certeza que era desse “mal” que
eu sofria. Em meio a essa pesquisa, tive a indicação
de um psiquiatra que tratava essa síndrome, e dessa
vez era no Rio. Mais do que depressa telefonei e liguei marcando
uma consulta para a semana seguinte. Faltavam sete dias para
eu ficar boa, era o que imaginava. Alguns remédios
e a cura, era essa a minha expectativa. Foram dias de angústia
e alegria, ansiedade e esperança, medo e fé,
tudo misturado e confuso.
*
Afinal
chegou !!!! Hoje era um dia especial! Apesar de continuar
com meus medos de sempre, sentia que uma porta poderia estar
se abrindo para mim. Finalmente eu estava com hora marcada
com alguém que tratava de pessoas que sofriam de um
mal, cujos sintomas físicos eram, se não iguais,
muito semelhantes aos meus.
A
manhã passou lenta, e enfim chegou a hora de sair de
casa. Cícero, o motorista de meu pai e uma das pouquíssimas
pessoas com quem eu me sentia segura de sair à rua,
buzinou do lado de fora, e eu, amedrontada e insegura, corri
para o carro. Para chegar a clínica, passei pelo Cosme
Velho, Laranjeiras, Botafogo, e como sempre, sem olhar para
os lados, sem ver as ruas, apenas torcendo para chegar inteira
ao meu destino. Sair de casa, era como se eu desse maior chance
aos ataques do meu inimigo invisível. Para mim, sentia-me
como se dentro de casa ele tivesse mais dificuldade de entrar,
enquanto que na rua eu estava absolutamente exposta.
Quando
na sala de espera aguardava me chamarem, rememorei com todos
os pontos e vírgulas um artigo de jornal, em especial,
que havia lido sobre o assunto e que tinha me impressionado
muito pela sua clareza e objetividade.
“SÍNDROME DO PÂNICO: o mal do final do
século”, era esse o título da matéria
que continuava assim: “... essa doença é
caracterizada por crises súbitas sem motivos aparentes.
São as chamadas crises de pânico que geralmente
duram vários minutos e cujos sintomas mais freqüentes
que ocorrem em conjunto são: palpitações,
tonturas, vertigens, sudorese, calafrios, sensação
de desmaio, falta de ar, boca seca, atordoamento, taquicardia,
confusão mental, contrações musculares,
sensação de que algo horrível está
prestes a acontecer, terror, medo de perder o controle, medo
de morrer.”
Enfim,
fui chamada. Entrei no consultório e por detrás
de uma mesa vi um rapaz jovem mexendo em um computador. Ao
me ver chegar ele se levantou e veio em minha direção.
Cumprimentou-me e indicou uma cadeira para que eu sentasse.
Fiquei tensa. Comecei a sentir todos os músculos de
meu corpo se retesarem. Olhei para ele e sem lhe dar tempo
de abrir a boca fui logo dizendo: “doutor, eu tenho
a Síndrome do Pânico”. E ele me respondeu:
“antes de qualquer coisa vamos fazer a sua ficha”,
e se dirigiu ao micro.
Começaram
as perguntas de sempre: nome, idade, alguma doença
grave, etc, etc... Enquanto eu lhe respondia como um autômato
a todas aquelas perguntas, minha vida dos últimos dez
anos passava pela minha cabeça como um filme em velocidade
máxima. Medo, angústia, desespero e mal-estar,
eram os atores principais. Como coadjuvantes, apareciam: dependência,
vergonha, covardia, e principalmente a grande decepção
que sentia por mim mesma.
“Por
que você acha que tem a Síndrome do Pânico?”,
ele perguntou. “Porque li em vários lugares os
sintomas dessa doença e são exatamente os que
tenho”, respondi. Depois disso meu corpo foi se enrijecendo
mais e mais e pensei que teria uma crise ali na frente do
médico.
Contei
com detalhes tudo que eu havia passado desde o fatídico
dia que assistia a Holanda jogar com o Brasil na Copa de 1974.
Ele me escutava atento e em silêncio. Depois perguntou
se eu já havia feito exames clínicos e eu respondi
que a menos de seis meses tinha sido internada em um hospital
onde fiz todos os exames possíveis: desde uma simples
análise de urina a eletroencefalograma, passando por
exame de esforço, eletrocardiograma, entre outros.
Nesse
momento senti muito medo, medo de ouvir pela milésima
vez que eu não tinha nada ou que estava com estresse
ou “piti”. Será que ele também não
vai conseguir enxergar que existe algo de errado comigo? Que
eu nunca fui uma pessoa covarde, preguiçosa, medrosa,
antes de 1974?
Relembrar
toda a dor, angústia e principalmente a solidão
que eu vivi todos esses anos estava me fazendo mal. Era como
se estivessem dissecando minha alma. Tinha a sensação
de que essa era a minha última chance, pois já
estava exausta. Não suportaria mais continuar essa
luta contra um inimigo que apesar de invisível era
muito forte e destruidor. Maltratava sem dó nem piedade,
sem mostrar a cara, sem ao menos ter um nome !
“Você
tem a Síndrome do Pânico, não resta a
menor dúvida”, disse-me o psiquiatra, olhando
dentro dos meus olhos e com toda a calma possível.
Descrever
o que eu senti naquele momento é quase impossível.
Não foi alegria mas também não era pesar,
não foi euforia mas também não era desânimo,
não foi felicidade mas com certeza não era tristeza.
Alívio, tranquilidade, sossêgo, era isso. Pela
primeira vez em mais de uma década eu estava sentindo
paz. Agora sim, poderei lutar de igual para igual, eu imaginei.
Sei o nome do meu inimigo e vou descobrir aquilo que pode
me ajudar a derrotá-lo.
Sentado
de frente para mim Dr. Paulo começou a me explicar
com detalhes, o que era a Síndrome do Pânico
ou Distúrbio do Pânico, e como eu deveria fazer
para tratá-lo. Haviam vários medicamentos que
poderiam, de imediato, parar minhas crises. Quanto às
fobias, adquiridas em consequência delas, eu resolveria
com a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
Quis
saber o que tinha ocasionado esse distúrbio em mim.
O que entendi pela explicação dele confirmavam
as informações que eu já havia obtido
nas minhas investigações, ou seja, tratava-se
de um problema com os meus neurotransmissores. Essas substâncias
químicas agem como mensageiros entre certos neurônios
no cérebro e quando esse sistema sofre alterações
pode causar diferentes reações emocionais e
físicas. Então, para mim, naquele momento, eu
tinha um problema neurológico, e sendo assim, era algo
físico.
*
Saí
daquele consultório acreditando estar tudo resolvido.
Eu entendi que teria que deixar a medicação
que me foi prescrita em 1974 pelo neurologista, em concordância
com a minha psicanalista daquela mesma época, Dra.
Vanda. Tal remédio não era apropriado para a
Síndrome do Pânico, e, portanto, eu deveria passar
a tomar uma nova fórmula que ele estava me receitando.
Chegando
em casa me senti um pouco assustada com tanta novidade, mas,
ao mesmo tempo, feliz por ter encontrado o caminho das pedras.
Começaria gradativamente a tirar os comprimidos que
tomava já há anos, e depois então, passaria
a usar a nova medicação. Dr. Paulo havia me
falado também que eu deveria fazer uma psicoterapia
do tipo TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental). Mais do que
depressa telefonei para marcar uma hora com a psicóloga
que ele me recomendou e marquei uma entrevista. O que seria
uma Terapia Cognitivo-Comportamental?
Dois
dias depois fui à minha consulta com a terapeuta indicada
pelo Dr. Paulo. Como trabalhavam na mesma clínica,
o caminho já me era conhecido, mas nem por isso, menos
assustador. Ter que ir até lá uma vez por semana
me deixava bastante inquieta. Fui recebida por uma moça
jovem muito simpática. Relatei toda a minha vida dos
últimos anos, mais uma vez, e conclui, contando a minha
conversa com o Dr. Paulo.
Nessa
entrevista com a terapeuta fiquei sabendo como é a
abordagem TCC (Terapia Cognitivo- Comportamental). Sintetizando,
o que compreendi é que a TCC é um tipo de terapia
que nos ensina métodos de relaxamento, formas de enfrentar
gradualmente os medos e recursos que permitem controlar a
ansiedade. Esse tratamento, acrescido da medicação
dada pelo psiquiatra, seria a melhor e mais rápida
forma de obter a cura, segundo o que me foi dito.
*
Iniciei
a terapia. No primeiro dia me deitei em um sofá e a
terapeuta mediu meu nível de ansiedade colocando em
um dos dedos de minha mão direita uma espécie
de anel ligado a um pequeno aparelho. Ao mesmo tempo ela me
pedia com uma voz baixa e suave que eu fosse relaxando partes
do meu corpo através de leves movimentos que consistiam
em retesar os músculos e soltá-los, alternadamente.
Com o tempo eu deveria aprender a fazer esses exercícios,
mesmo de pé, caso me sentisse tensa em qualquer lugar
que fosse. Recebi também uma folha de papel impressa
com a descrição dos exercícios para fazer
em casa, três vezes ao dia.
Na
segunda sessão ela me pediu para desenhar um mapa da
região onde eu morava, calculando mais ou menos a distância
entre cada ponto assinalado por mim, a partir da minha casa.
Exemplo: da portaria do meu prédio até a Igreja
mais próxima, 30 metros; da padaria ao prédio,
50 metros; até a loja de conveniência, 40 metros;
e assim por diante. Aos poucos eu iria começar a sair
de casa, dirigindo-me a um lugar determinado previamente,
iniciando é claro, pelos mais próximos. Durante
a caminhada deveria tomar nota do grau de ansiedade que eu
atingiria, numa escala de 1 a 10.
Esses exercícios no início foram muito bons
para mim. Eu estava colocando os pés para fora de casa,
sozinha. Na primeira semana não passei da esquina,
ou seja, devo ter dado uns dez passos. Aos poucos fui me distanciando
de minha portaria, o que estava me fazendo muito bem. Depois
de um mês comecei a perceber que eu não conseguia
passar de um determinado ponto, aproximadamente, uns dois
quarteirões da minha casa. Conversei sobre isso com
a terapeuta e chegamos a conclusão que era porque,
dali em diante, não tinha um lugar ou uma casa próxima,
mais conhecida. Precisava, e eu sempre soube disso, de referências,
ou seja, lugares onde eu pudesse ser acolhida caso passasse
mal. Por conta desta necessidade eu sabia onde ficavam todas
as clínicas, hospitais, consultórios de médicos
conhecidos, casas de amigos, ao longo dos trajetos que eu
percorria, mesmo quando saía acompanhada.
Meus pais moravam perto de mim, mais ou menos a uns quatro
quarteirões. Na época eu achava uma distância
gigantesca e tudo poderia acontecer naquele trajeto. Várias
vezes deixei de ver meus pais por medo de sair sozinha e vergonha
de contar essa minha fraqueza.
Depois de aproximadamente um mês de Exercícios
de Exposição (é assim que é chamado
este tipo de exercício), coloquei na minha cabeça
que a minha próxima meta seria ir à casa de
meus pais, mas foi impossível. Um ou dois quarteirões
já estavam sendo difíceis, imaginem quatro!
Era demais para mim. Tinha vergonha de contar isso até
na terapia.
Um belo dia de madrugada minha mãe me telefonou, dizendo
que meu pai, já na época bastante doente, tinha
caído ao se levantar da cama e estava sangrando. Ela
não tinha como levantá-lo, e eu, sem nem pensar
em fobias ou medos, saí de casa a pé, sozinha,
e, literalmente correndo, cheguei a casa deles.
Ajudei
no que pude, ficamos conversando um pouco, pois graças
a Deus ele não teve nada de grave, e dormi lá.
No dia seguinte precisava voltar para casa. Pedi que me trouxessem.
Minha mãe perguntou se eu não poderia ir sozinha
ou de táxi já que ela estava sem motorista e
não podia deixar meu pai sem companhia. Na mesma hora
o pânico surgiu e eu fiquei desesperada, torcendo que
alguém aparecesse logo, para me levar em casa. Durante
essa espera aconteceu algo muito estranho. Parecia que existiam
duas eu, um total conflito. Uma eu pensava que era natural
eu sentir esse medo, pois afinal das contas era esse o meu
comportamento há anos. A outra, ou o outro eu, pensava:
mas se eu vim de madrugada, correndo e sem medo, apesar da
situação assustadora da queda do meu pai, por
que não poderia voltar? Afinal, isso não faz
parte dos Exercícios de Exposição que
eu venho fazendo diariamente e com relativo sucesso? Como
entender uma coisa assim?
*
Essa
situação ambígua que eu vivi foi um marco
no meu processo de tratamento. Deu início a uma série
de dúvidas que culminarão com um amplo questionamento
sobre as diferentes modalidades de psicoterapias.
Quando
afinal cheguei em casa acompanhada do meu irmão, senti
uma tristeza enorme. Não conseguia entender os “porquês”
das minhas atitudes naquelas últimas horas. Coisa mais
sem sentido, eu pensava. Não tem lógica esse
comportamento!!!
No
dia seguinte tive mais uma sessão com a psicóloga
e conversei com ela sobre isso. Relatei os fatos com todos
os detalhes que pude. Perguntei porque eu não era capaz
de ter sentimentos de acordo com o meu raciocínio lógico
em vez dessa ambigüidade. Antes eu era vista como medrosa,
apavorada, insegura, estressada. E agora? O que eu estava
me tornando? Estava me sentindo confusa, dúbia, contraditória
e, principalmente, pouco coerente.
A explicação que recebi não foi satisfatória
para o meu entendimento. Segundo a terapeuta, os Exercícios
de Exposição têm que ser feitos gradativamente:
“...você não pode queimar etapas sob o
risco de voltar a estaca zero e ter que recomeçar tudo
de novo. É uma questão de condicionamento”.
Estas frases não fizeram o menor sentido para mim e
senti, a partir dali, a necessidade de me informar melhor
sobre outros tipos de tratamento.
Acredito,
sinceramente, que da mesma maneira como as pessoas têm
gostos diferentes, torcem por times diferentes, preferem música
americana em vez de italiana, elas também podem ter
preferências quanto ao tipo de psicoterapia que lhes
é oferecida. O fato de não nos adaptarmos a
uma linha terapêutica não quer dizer que tal
modalidade seja ruim. É apenas pouco funcional, ou
para o tipo de “mal” que se tem, ou, como no meu
caso, pouco esclarecedora para atender ao meu tipo de expectativa.
Para
mim, não bastava poder apenas controlar as minhas ansiedades
e com isso diminuir meus medos. Queria, ou melhor, precisava
entender porque eu os tinha. Acreditava que tal compreensão
me deixaria livre dos fantasmas ameaçadores. Na verdade,
o fato é que eu não conseguia aceitar que isso
que eu tinha era algo genético ou mesmo hereditário
como me haviam falado. Precisava de uma explicação
mais coerente, que estivesse em sintonia com a minha maneira
de pensar.
Sempre
soube que eu era uma pessoa muito exigente comigo mesma. Cobrava
de mim, desde muito pequena, um comportamento ponderado e
principalmente maduro. Era uma menina aparentemente alegre
e extrovertida, mas quando algo não ia bem dentro de
mim, jamais colocava para fora. Achava que falar o que me
aborrecia iria desagradar os outros e assim sempre convivi
com meus dilemas sem dividir com mingúem. Sentia-me,
já há bastante tempo, meio cansada de ser sempre
o ponto de apoio, o porto seguro para os que estavam se afogando.
Será que esse fato de me sentir extremamente cansada
ou até mesmo exausta de ser sempre tão prestativa
e incansavelmente tão compreensiva, não teria
contribuído para essa minha fuga do mundo? Estas perguntas
ficaram sem respostas para mim por alguns meses ainda.
Algum
tempo depois, e já bastante consciente de que aquele
tipo de terapia não estava me satisfazendo mais, comecei
efetivamente a procurar o que de novidade estavam escrevendo
sobre a Síndrome do Pânico. A maior parte do
que encontrei ainda era muito parecido com tudo o que eu já
tinha ouvido até então. Serotonina, distúrbio
dos neurotransmissores, questões genéticas,
controle, medicamentos, era esse o discurso dos profissionais
que estavam na mídia. Mas seria só isso? Por
que então as minhas atitudes e os meus comportamentos
se modificam, dependendo dos fatores ambientais e emocionais
do momento? Dito de outra maneira: se eu estou passando férias
com amigos em Angra dos Reis, uma cidade linda do litoral
do RJ, e estou feliz e relaxada, distante dos problemas do
dia-a-dia, por que nem penso nas crises de pânico? Por
que o fantasma não aparece?
*
Conforme
mencionei anteriormente, a psicoterapia que me estava sendo
aplicada, baseava-se em técnicas de condicionamento.
Só que eu não me imaginava, conseguindo superar
as minhas dificuldades por meio de condicionamentos. Eu não
me sentia bem. Condicionamento me lembrava adestramento, e
isso não era para mim. Assim eu pensava naquela época.
As
interrogações em relação ao meu
tratamento aumentavam cada vez mais. Comecei a me sentir muito
insegura e, de novo, muita ansiedade, o coração
disparado, nó na garganta, suor nas mãos e muita
angústia. As sensações estavam bem parecidas
com as de uma crise, mas eu não podia tê-las
novamente. Agora não, dizia para mim mesma. Como ter
crises de pânico estando em pleno tratamento? O que
está acontecendo comigo? O que está me fazendo
mais infeliz do que antes? Todos dizem que esse é o
tratamento indicado para a Síndrome do Pânico,
por que então não está funcionando comigo?
Apesar
do meu esforço em buscar algo diferente em termos de
tratamento, não via muitas alternativas. Tudo indicava
que era mesmo esse método que eu estava seguindo, o
mais adequado. Resolvi continuar tentando. Voltei a me dedicar
aos exercícios e, pouco a pouco novamente, sentia que
estava fazendo alguns progressos. Em muitos momentos até
me achava feliz. Afinal, já me afastava de casa com
uma certa tranquilidade.
Só que, um ano se passou e eu continuava com os Exercícios
de Exposição, com a medicação
e com todas as minhas interrogações. Se algum
dia percebia que poderia faltar o remédio, entrava
em desespero. Sem dúvida alguma, já havia melhorado
muito no que se referia a sair ou ficar em casa sozinha, mas
nem de longe tinha voltado a ter a liberdade que desfrutava
antes da primeira crise. Ainda me sentia muito vulnerável
ao que eu acreditava vir do ambiente externo. Será
que vou ter que tomar remédio a vida inteira? Não
que isso me preocupasse muito, mas me fazia pensar: se alguém
tem que tomar remédio por conta de um problema neurológico,
e assim estar sempre prevenida contra um ataque, como poderá
se sentir curada?
*
Um dia, finalmente, tudo começou a mudar. Havia dito
uma vez a uma amiga, com quem tinha conseguido conversar sobre
a Síndrome do Pânico, que eu precisava saber
mais sobre mim mesma. Algo me dizia que ao entender os meus
porquês eu teria condições de reverter
a minha situação e me livrar da Síndrome
do Pânico. No tipo de terapia que eu estava fazendo
não havia espaço para nada além dos condicionamentos,
muito importantes, sem dúvida. No entanto, cada vez
mais me certificava que não era ali que eu iria conseguir
satisfazer os meus “porquês”.
Uma noite, recebo um telefonema dessa mesma amiga que me dizia:
“Ady, eu estou com o telefone de uma psicóloga
que pode te ajudar. Ela tratou da filha de um amigo que teve
a Síndrome do Pânico e que está ótima”.
Fiquei por uns momentos sem saber o que dizer: começar
tudo de novo, contar toda a minha história novamente!!!!
Será que vale a pena recomeçar esta ladainha?
Nem eu mesmo me agüento mais. Mas ela insistiu, e eu,
que na verdade estava louca para escutar uma nova opinião,
pedi o telefone e liguei.
Dois
dias depois, cercada de todo o meu esquema de segurança,
fui ao consultório da Dra. Tereza, em Copacabana. Ao
chegar lá, senti medo. Medo de ouvir algo ruim que
me tirasse a esperança, medo de estar me expondo novamente
e me decepcionar, mas sobretudo, muito medo de enfrentar mais
uma vez, cara a cara, os meus fantasmas.
*
Era
uma sala ampla e agradável, com móveis do tipo
colonial, em um prédio pequeno de três andares.
Algo ali me parecia familiar. Percebi, então, que tínhamos
um gosto parecido, pois a decoração daquele
lugar era muito parecida com a da minha casa, e isso me fez
muito bem. Ela tinha mais ou menos a mesma idade que eu, uma
voz suave e me transmitiu desde o primeiro momento uma grande
segurança. Sentei-me numa poltrona confortável
e ela em outra igual a minha, de frente para mim. Comecei
logo a dizer que eu era portadora da Síndrome do Pânico
e até há poucos dias atrás tinha feito
tratamento terapêutico com uma outra psicóloga.
Olhando para mim, e de uma maneira muito amável, mas
também segura, disse-me mais ou menos assim: “antes
de mais nada, gostaria de dizer que eu não vejo você
como portadora da Síndrome do Pânico, e sim como
agente dela. O que estou querendo dizer com isso? Portador
é um termo que remete a algo de passivo. Fica parecendo
que não temos nada a fazer com isso a não ser
carregar para sempre, como se fosse algo impossível
de ser debelado, e esse não é o caso da Síndrome
do Pânico. Agente, bem o contrário, passa a idéia
de estar implicado e portanto significa ter poder de ação”.
Completamente
fascinada e admirada com aquela nova interpretação,
lembro-me que perguntei: “você está querendo
dizer que a Síndrome do Pânico é algo
que foi produzida por mim e, sendo assim, eu posso acabar
com essa desgraça que me perturba há anos? Você
acredita que eu posso debelar esse horror por completo sem
me sentir eternamente uma refém desse fantasma?”
Por que então os primeiros médicos que procurei
diziam que era psicossomático o que eu tinha, e mais
tarde, outros médicos que consultei, diagnosticaram
diferente, não falando mais em psicossomático
e sim, em disfunção de neurotransmissores?
Na
verdade, eu me senti muito estimulada com aquele papo, e as
minhas perguntas se multiplicavam. Por mim eu ficaria ali
por horas a fio. Parecia que eu queria de uma só vez,
que fossem respondidas todas as questões que eu vinha
ruminando há tanto tempo. Mas, infelizmente, isso não
era possível. A única coisa que eu logo percebi
é que era ali mesmo que eu obteria as minhas respostas.
Só precisava ter calma e procurar deixar que tudo acontecesse
gradativamente. Estava na hora de diminuir um pouco a ansiedade.
O que eu consegui compreender em relação aos
diagnósticos anteriores (psicossomático, disfunção
de neurotransmissores, etc), a partir das respostas da Tereza
é que nas últimas décadas as pesquisas
realizadas sobre o cérebro e o seu funcionamento, envolvendo
neurônios e neurotransmissores, levaram a uma nova compreensão
do que seja psicossomático. Novas versões, novas
explicações, nova terminologia. Antes, quando
eram feitos todos os exames laboratoriais e clínicos
e nada de fisiológico era constatado, por eliminação,
o diagnóstico dizia que o mal era psicossomático
( algo psíquico se manifestando no corpo), o que significava
que “tudo estava na cabeça”, frase esta
que me foi dita tantas vezes por diferentes médicos.
O “tudo estava na cabeça” , por sua vez,
significava para mim e para tantas pessoas que tudo aquilo
que eu sentia era produto da minha imaginação,
já que nada de errado ou de concreto havia sido encontrado
em meu corpo. E, hoje, posso perceber quantos estragos tal
crença provocou em minha vida e durante tanto tempo
!
Agora,
com a nova maneira de pensar dos cientistas, a partir dos
estudos do cérebro, mente e corpo (via neurotransmissores)
estão interligados e aquilo que afeta um, necessariamente
terá efeito sobre o outro. Sendo assim, mesmo que a
Síndrome do Pânico seja considerada um distúrbio
causado por um mau funcionamento dos processos biológicos
neuroquímicos do cérebro, isso não é
tudo. Interfere também no quadro da Síndrome
do Pânico a forma de pensar e agir da pessoa, ou seja,
a maneira como cada um negocia com a vida. A psicoterapia,
no caso, visa promover mais consciência do nosso modo
de funcionar em interação com o contexto. Só
assim, torna-se possível mudar o foco de atenção
sobre o mundo e obter transformações, visando
algo mais produtivo e interessante.
*
Essa
foi mais ou menos a nossa entrevista. Torci para que a Dra.
Tereza tivesse gostado de mim, pois para ela é super
importante que exista uma empatia de lado a lado. É
preciso que isto aconteça não só do paciente
para com o terapeuta, como também, do terapeuta para
o paciente, ou seja, uma via de mão dupla.
Quando
desci, e encontrei o Cícero fazendo mais um dos seus
malabarismos no trânsito, estava com o pensamento completamente
voltado para tudo aquilo que me tinha sido dito na entrevista.
Eu, que costumava ficar inteiramente ligada nos movimentos
do motorista, obrigando-o, por conta dos meus medos, a fazer
coisas “erradas”, como, por exemplo, evitar túneis,
parar em lugares proibidos, avançar sinais quando estes
demoravam demais a abrir, entrar com o carro em ruas só
para pedestre, etc, naquele dia nem olhei para ele nem para
o que se passava fora do carro. Era como se eu estivesse fechada
para o mundo olhando, só para mim mesma.
Havia recebido novas explicações, tinha ouvido
pela primeira vez coisas completamente diferentes de até
então. Onde estará a verdade? Será que
existe uma verdade, me perguntava. O que está errado
na minha concepção do mundo e de mim mesma?
Mais e mais perguntas surgiam, só que desta vez eu
sentia que tinha grandes chances de chegar às respostas.
No dia seguinte liguei para a Tereza e lhe disse que gostaria
de vê-la novamente. E então marcamos para começar
a terapia.
Semanalmente
nos encontrávamos no consultório e falávamos
sobre tudo. O que mais me afligia naquele momento, era o porquê
eu ainda não conseguia deixar de ter medo de me sentir
mal, medo de ter uma crise. A explicação que
ela me deu veio acompanhada de uma experiência real.
“Você já reparou no barulho do ar condicionado”,
disse-me ela. Espantada eu respondi que não. “Então
repare e me diga como ele é”. Sem entender muito
a razão daquela pergunta, eu tentei reproduzir o som.
Então, ela me perguntou: “quantas vezes, desde
que chegou aqui, percebeu esse barulho? ”Nenhuma”,
eu disse. Mas desde que você falou nele eu não
deixo de notá-lo”. “Pois agora”,
disse-me ela, “pense no que acontece quando você
começa a sentir seu coração bater, o
pulso acelerar, os arrepios pelo corpo. Você concentra
toda a sua atenção nisso e, com certeza, bloqueia
todas as outras coisas em torno de si, aumentando assim as
sensações amedrontadoras, chegando algumas vezes
a uma crise de pânico. Perceber esses movimentos automáticos,
procurar modificá-los desviando a atenção
das coisas que te afligem, rompendo o círculo vicioso
que te faz tanto mal, e, sobretudo podendo compreender estes
mecanismos, o seu medo de passar mal vai se esvaziando e terá
grandes probabilidades de vir a desaparecer?” “Como
assim”, perguntei. “Que ciclo é esse?”
“Imagine
um círculo. Coloque ao norte a palavra pensamento,
ao leste ansiedade, ao sul alteração do corpo,
a oeste interpretações e percepções
(veja o desenho na seção Informes). É
esse o círculo vicioso. E como ele funciona? Quando
você lê, entende ou interpreta qualquer estímulo
(interno ou externo) ou sensação, de uma maneira
alarmante, sem você perceber tudo vai se alterando no
seu corpo e fazendo sua ansiedade aumentar de uma maneira
insuportável. Vou dar um exemplo: se você está
na rua e sente uma tontura, em vez de compreender, que pode
ser porque está com fome, ou com calor, ou com raiva
de estar ali, ou até mesmo porque fez algum movimento
rápido demais, de imediato você pensa que está
com os sintomas da crise e na iminência de ter uma nova
crise. Estabelece-se o círculo vicioso: a ansiedade
aumenta, as alterações no corpo se sucedem...
vão se potencializando e... assim por diante.
Essa
explicação fez sentido para mim. Realmente eu
estava enredada nessa maneira de pensar e agir. Quantas e
quantas vezes eu entrei nesse circulo vicioso? Inúmeras...
Mas, e agora......? Teria que mudar meu padrão de comportamento.
Mas como? O que aprendi, ou melhor, o que percebi, é
que: conscientizando que os pensamentos podem desencadear
sentimentos e sensações pavorosas, e que ao
termos essa consciência e o controle sobre estes mesmos
pensamentos, podemos romper a circularidade, colocando o peso
certo para cada situação. Exemplo: se eu estiver
subindo uma ladeira carregando uma sacola pesada, é
super natural que meu coração dispare. Sendo
assim, porque pensar que estou com algum problema cardíaco,
vou morrer, ou desmaiar. Se estou numa fila de banco sem a
menor paciência de estar ali, olhando os caixas completamente
despreocupados em atender com mais eficiência, e até
mesmo com receio dos tão conhecidos assaltos a banco,
por que não posso sentir tonteira ou mesmo meu coração
disparar? Não são esses os sintomas das pessoas
em um momento de ansiedade? E sentir ansiedade nesta situação,
não é super natural, próprio de qualquer
mortal ??? O importante é não dar muito valor
nem somatizar essas sensações. É perceber
que estamos ansiosos, sim. Chateados, sim. E até nos
sentindo desconfortáveis e com medo. Mas, é
só. A Tereza me fez ver que a maior parte das minhas
crises de pânico era causada por uma interpretação
inadequada que eu fazia das minhas sensações
corporais normais. Mesmo quando estamos ansiosos e automaticamente
nossas reações físicas se modificam,
não quer dizer que eu vou morrer ou ter um ataque de
pânico. A ansiedade é um sentimento normal e
até necessário em muitos momentos. Não
ter ansiedade é irreal para qualquer ser humano.
*
Durante
a minha terapia, que durou um ano e meio, pude perceber que
eu vinha sendo há anos governada, dirigida, pela má
interpretação de mim mesma. Que eu não
conhecia meu corpo e minhas sensações. Durante
muito tempo ainda vivi alerta aos meus “sintomas”
para não ser de novo dominada por eles. Só com
o passar do tempo, e depois de me conhecer melhor, desmistificando
meus medos, e principalmente, aprendendo a contextualizar
as situações vividas é que pude deixar
de recair nos velhos padrões de comportamento que me
fizeram tanto mal.
*
Com
certeza, posso dividir o meu processo terapêutico em
duas partes. A primeira, e muito importante, hoje posso perceber,
foi a TCC que me ensinou os Exercícios de Exposição
me dando a possibilidade de sair de casa e começar
a enfrentar meus medos ou fobias. E a segunda, que me fez
acreditar que eu era agente de tudo que acontecia comigo,
na medida em que as minhas próprias interpretações
determinavam as minhas ações, ou seja, o que
eu interpretava, compreendia e percebia, era o que me fazia
sentir isso ou aquilo e, por conseguinte, agir desta ou daquela
forma. Acredito piamente, que quando a Tereza me fez entender
todo esse processo de revisão e ressignificação
do que seja a Síndrome do Pânico, pude compreender
melhor a necessidade dos enfrentamentos das dificuldades,
sejam elas relacionadas às fobias ou à minha
visão de mundo.
*
O
que eu tenho tentado passar, em todos os lugares, que sou
convidada a falar sobre a Síndrome do Pânico
é que: hoje, eu me considero curada desse mal. Não
tenho nenhum problema em usar a palavra curada, apesar de
saber que muitos médicos, psicólogos e psicanalistas
não gostam desse termo quando ligado à Síndrome
do Pânico. Mas eu sei o que vivi, sei o que sofri e
principalmente sei como estou agora, ou seja, há anos
sem passar por perto de uma crise, sabendo muito bem discriminar
os significados das minhas sensações. Por isso
digo e repito que se nós quisermos, “ficamos”
curados, sim. O processo para se chegar a isso não
é fácil, mas é possível a qualquer
um. Se acreditarmos que podemos, com certeza, chegamos lá.
Informação, garra, disciplina e principalmente
determinação, é o caminho certeiro para
o sucesso.
Maria
Adelaide C. Daudt D’Oliveira
adelaidedaut@jornalsaindodoescuro.com.br
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