
PÂNICO:
UMA FORMA DE EXPRESSÃO DA ANSIEDADE
As características do nosso tempo atual parecem conspirar
para que se mantenha uma atmosfera de sobressalto. Por conseguinte,
na clínica psicoterapêutica os quadros sintomatológicos
mais freqüentes têm sido os chamados transtornos
de ansiedade, em suas diferentes modalidades. Entre os mais
dolorosos, assustadores e desconcertantes estão aqueles
que envolvem as já conhecidas crises de ansiedade
em alto grau ou crises de pânico.
Crise ou ataque de pânico, portanto, é a nomeação
que tem sido utilizada para designar uma das formas mais
severas de expressão da ansiedade. Mas, a ansiedade
não é só patológica. Muito pelo
contrário. Utilizada em níveis adequados ela
é a força energética que impulsiona
a vida.
A ansiedade, basicamente, refere-se à ativação
do organismo. É uma manifestação, algo
que afeta, que toca, que mexe, que inquieta. Diz respeito
à vitalidade, ao anímico (alma), à
animação, envolvendo o somático (corpo)
e o psíquico --- uma espécie de costura entre
a alma e o corpo.
Isto quer dizer que a ansiedade é uma vivência,
um estado subjetivo ou experiência interior, que pode
ser qualificada como emoção --- moção,
movimento, ação. A experiência subjetiva
ou vivência emocional apresenta características
próprias. A ativação neurofisiológica
que consiste na deflagração dos mecanismos
de ordem física, é parte constitutiva deste
chamado “movimento da alma". Ou seja: os processos
ansiosos têm como objetivo central preparar o organismo,
em sua totalidade, para a ação.
Desde sempre costumamos pensar o ser humano, utilizando
como recurso, traçar um paralelo com os demais animais.
Seguindo este modelo, dizem que os animais nascem munidos
de um programa biológico estabelecido. Tratam-se
de reações filogenéticas (relativas
à espécie) específicas e antigas com
características diferenciadas entre os grupos. No
que diz respeito à defesa, tais reações
variam desde o reflexo de se fazer de morto, por exemplo,
até uma avalanche de movimentos automáticos
imediatos, entre tantos outros tipos de reações
de autoproteção e preventivas, voltadas eminentemente
para a preservação.
Já, no homem, proteger-se, garantindo a sua própria
integridade, significa algo de muito mais complexo. Está
relacionado ao componente orientação que impõe
ao ser humano prestar atenção, (estar consciente,
vigilante, alerta) ao que lhe acontece em seu interior e
em seu meio-ambiente, decidindo a cada instante o procedimento
ou a conduta adequada, de acordo com as urgências
que se apresentam. O ser humano aprende com suas experiências
passadas, e por conseguinte tem a capacidade de se antecipar
e prever perigos futuros prováveis, embora deva sempre
estar atento aos elementos inaugurais, presentes nos novos
"aconteceres".
Se utilizarmos a linguagem de um sistema informático
(sinais, signos, emissores e receptores, etc) para pensarmos
sobre o processo de orientação humana em relação
ao mundo, aos perigos, à sobrevivência, à
vida, em geral, podemos dizer que o aumento ou diminuição
da ansiedade está inteiramente articulado com a elaboração
individual da informação que chega a cada
pessoa, particularmente. Isto é: o grau de ansiedade
varia de acordo com a maneira como são captados os
signos que partem de um emissor e como são recebidos
pelo receptor. A recepção de uma informação
tem a ver com a interpretação dos sinais emitidos,
que por sua vez vão depender das condições
(internas, ambientais e contextuais) que estão em
jogo a cada instante, envolvendo a pessoa. Ou seja, tudo
vai depender de como cada um percebe e interpreta o mundo
ao seu redor.
Vemos assim então, que existem deflagradores externos
de ansiedade, situados no meio-ambiente, que em geral são
percebidos com mais evidência, e deflagradores internos
de ansiedade, constituídos pela percepção
das manifestações do próprio corpo(taquicardia,
suor frio, tonteira, nó na garganta, respiração
ofegante, por exemplo), e também a partir de lembranças,
pensamentos, imagens, fantasmas ou fantasias pessoais e
históricas. Todos eles são estímulos
que nos afetam e cujos efeitos podem ser trabalhados em
psicoterapia quando não nos beneficiam.
Podemos assim dizer que a ansiedade é uma resposta
fisiológica e psicológica do ser humano a
qualquer desestabilização, em maior ou menor
grau, e que, em princípio, visa protegê-lo
de qualquer ameaça à sua integridade. Mas,
por outro lado, quando impossibilitada de ser neutralizada
ou reduzida, a ansiedade se torna, ela própria, um
estímulo aversivo e é percebida como medo.
Dependendo das características de suas manifestações,
expressa-se de formas diferentes, circunscrevendo os quadros
patológicos formalmente descritos nos manuais de
medicina.
Tereza
Aquino
Psicóloga - CRP 05-16558
terezaaquino@jornalsaindodoescuro.com.br
<<
voltar a artigos >>